A crise de intoxicação por metanol em bebidas adulteradas, que deixou 25 mortos em 2025, levou a ANP a propor a adição de benzoato de denatônio ao etanol hidratado combustível. A substância extremamente amarga permitiria ao consumidor detectar a adulteração no primeiro gole. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aprovou estudo que prevê adição de benzoato de denatônio ao etanol hidratado combustível para impedir desvio do produto à fabricação clandestina de bebidas alcoólicas.

A adição obrigatória de benzoato de denatônio, substância extremamente amarga, ao etanol hidratado combustível é a solução definitiva proposta pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para impedir o desvio do produto à fabricação clandestina de bebidas alcoólicas. A medida foi aprovada pela diretoria da agência em 2 de setembro e ainda depende de testes mecânicos para comprovar que o aditivo não causa danos a motores e ao sistema de emissões veiculares.

A decisão responde a duas determinações. A Resolução CNPE nº 6, de 2026, estabeleceu que a ANP deveria conduzir estudos para prevenir o desvio de etanol combustível, na esteira da crise de intoxicação por metanol que atingiu o Brasil em 2025. O Acórdão 1790/2026 do Tribunal de Contas da União (TCU), resultado de auditoria operacional sobre adulteração de bebidas alcoólicas e riscos à saúde da população, recomendou à agência a avaliação de barreiras preventivas aplicáveis ao combustível.

Entre setembro e dezembro de 2025, o Ministério da Saúde registrou 890 notificações de intoxicação por metanol associadas ao consumo de bebidas alcoólicas adulteradas, segundo balanço divulgado em dezembro. Desse total, 76 casos foram confirmados e 25 mortes atribuídas à contaminação. São Paulo concentrou a maioria das ocorrências, com 52 casos confirmados e 12 óbitos. Pernambuco registrou oito casos e cinco mortes. Os demais óbitos ocorreram no Paraná (três), em Mato Grosso (três) e na Bahia (um), segundo a Agência Brasil.

A crise não se encerrou com a virada do ano. Em 2026, segundo o Ministério da Saúde, mais 13 mortes por intoxicação por metanol foram confirmadas até junho, com 22 ocorrências ainda sob investigação. Investigações da Polícia Civil de São Paulo apontaram que a maior parte das bebidas adulteradas com metanol no estado saiu de uma fábrica clandestina na região metropolitana da capital, abastecida com etanol adulterado adquirido em postos de combustíveis. Segundo o Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade, o prejuízo com falsificação de bebidas alcoólicas no Brasil atingiu R$ 85,2 bilhões em 2025.

Solução provisória já tem prazo

Enquanto os testes do benzoato de denatônio não forem concluídos, a ANP propõe, como medida transitória, a adição obrigatória de corante verde ao etanol hidratado combustível nas usinas. A obrigatoriedade será estabelecida por meio da revisão da Resolução ANP nº 907/2022, com prazo de transição após a publicação da norma revisora para que os agentes econômicos se adequem. A previsão é de implementação ainda em 2027.

O processo de revisão da resolução terá início imediato e seguirá as etapas regulatórias: elaboração de análise de impacto regulatório (AIR) ou nota técnica de regulação, consulta e audiência públicas e deliberação da diretoria colegiada.

Benzoato de denatônio: uso inédito em motores

O benzoato de denatônio já é utilizado em etanol para diversas aplicações, como produtos de higiene e limpeza, para diferenciá-lo de bebidas alcoólicas. A aplicação em motores, no entanto, não tem precedentes. Segundo a ANP, a comprovação de viabilidade técnica exige testes mecânicos que atestem a ausência de impactos adversos sobre os componentes dos veículos e sobre as emissões. Não há prazo definido para a conclusão desses estudos.

Para a fabricação clandestina de bebidas, a substância funcionaria como barreira sensorial: por ser extremamente amarga, o consumidor detectaria a adulteração no primeiro contato com o produto.

Consulta ampla ao mercado

O estudo da ANP envolveu reuniões com produtores de etanol, distribuidores de combustíveis líquidos, fornecedores de corantes, empresas de inspeção de qualidade, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e a Câmara Setorial da Cachaça do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

A agência também realizou testes físico-químicos no Centro de Pesquisas e Análises Tecnológicas da ANP (CPT) e avaliou estudos de terceiros. O relatório foi enviado ao Ministério de Minas e Energia, que preside o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), e ao TCU em 5 de setembro.

Fonte: Movimento Econômico

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