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Estimativas de XP e Inter para os preços sobem conforme as cotações do petróleo se mantêm acima das US$ 100; preços mais altos dos combustíveis devem afetar IPCA e fazer o BC ficar mais cauteloso nos cortes de juros
Os primeiros sinais de que o choque o petróleo causado pela guerra no Oriente Médio já estão motivando revisões para o comportamento da economia brasileira em 2026. XP e Banco Inter já incluíram em sua projeções a perspectiva de uma inflação mais alta e de cortes menores que os esperados anteriormente para a taxa de juros básica (Selic) no ano.
Em análise publicada logo após a divulgação do IPCA-15 de março nesta semana, que avançou acima do consenso do mercado, para 0,44%, os economistas Alexandre Maluf e Vinicius Meggiolaro, disseram que a XP está vendo agora um cenário para a inflação de 2026 de 4,5%, ante a estimativa anterior de 3,8%.
Ao mesmo tempo, em relatório divulgado na noite sexta-feira, Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, elevou sua projeção de 3,8% para 4,3% em 2026, mantendo, no entanto, a estimativa de 2027 em 3,4%.
Para os economistas da XP, embora a leitura do IPCA-15 ainda não tenha trazido de forma relevante os efeitos do conflito no Oriente Médio, um alerta foi a alta de 3,8% nos preços do diesel. Embora em linha as expectativas, eles destacaram que a projeção para o IPCA cheio de março está em 0,74% — antes do conflito, estava em 0,32%.
Maluf e Meggiolaro disseram que, como premissa subjacente à essa elevação, eles admitem um aumento do preço médio do petróleo Brent de US$ 60 por barril para 80 dólares. “Mantivemos a premissa de taxa de câmbio em torno de R$ 5,25 no primeiro semestre e R$ 5,50 no segundo”, escreveram.
Sobre os combustíveis, eles projetam alta acumulada em torno de 5% para o preço da gasolina entre março e abril. “Isso equivaleria a um reajuste de aproximadamente 20% pela Petrobras às distribuidoras. No entanto, mesmo que o reajuste não aconteça, nosso cenário se mantém, visto que os preços praticados já não correspondem ao preço-lista da companhia.”
No caso do diesel, eles consideram que, mesmo que o impacto direto seja diminuto no índice de inflação, há efeitos indiretos sobre fretes nos próximos meses, colocando pressão sobretudo sobre os preços de alimentos.
Já a economista-chefe do Inter lembrou que o conflito no Oriente Médio resultou em um impacto significativo de alta no petróleo, em cerca de 50%, o que tende a pressionar também preços de outras commodities, elevando não somente a inflação de transportes, mas também de alimentos e possivelmente alguns bens industriais.
“Considerando a valorização de cerca de 5% do real acumulada no ano, juntamente com o desaquecimento da demanda, resultado da política monetária bastante restritiva, a alta da inflação deve ter caráter transitório, se dissipando no segundo semestre. Com isso, mantemos nossa visão de longo prazo, com a inflação convergindo para próximo do centro da meta em 2027, em 3,4%”, ponderou.
Para Rafaela, o choque do petróleo reacende temores inflacionários, leva o mercado a eliminar a expectativa de cortes de juros em 2026 e a precificar possíveis altas, em linha com episódios históricos em que aumentos abruptos do petróleo se associaram a inflação mais alta.
“Entretanto, nem todos os choques de petróleo produzem os mesmos efeitos. A experiência histórica mostra que o impacto depende fortemente do contexto macroeconômico inicial. Diferentemente dos choques dos anos 1970, que ocorreram em um ambiente de inflação estruturalmente elevada, ou de 2022, quando a economia global enfrentava fortes pressões de demanda, desorganização das cadeias produtivas e política monetária expansionista, o atual episódio se dá em um contexto distinto”, argumentou.
Taxa de juros
Com a expectativa de inflação mais alta no ano, as projeções para a política monetária também foram alteradas. A XP segue projetando cortes de 0,50 p.p. na taxa Selic nas próximas reuniões, até 12,75%, seguidos por uma pausa para avaliação mais detalhada do período eleitoral e da política fiscal à frente.
Mas os economistas admitem que considerando os desenvolvimentos recentes nos cenários global e doméstico, há chances de deterioração do cenário inflacionário. “Assim, a calibragem monetária à frente pode acabar sendo menos intensa do que atualmente esperamos”, ponderam.
Mas como o risco no cenário externo aumentou e tende a impactar o tamanho do corte de juros esperado para o ano, a economista disse ter alterado a expectativa de Selic no final do ano, de 12,0% para 12,5%. “O cenário externo de maior risco deve impedir o Copom de acelerar os cortes, enquanto todo o impacto da alta do petróleo ainda é incerto. Além disso, o risco fiscal permanece elevado com a possibilidade de novos gastos e subsídios serem implementados pelo governo, sendo ano de eleição”, justifica.
“O cenário é de maior incerteza e deve retirar espaço para um corte de juros de 300 bps que esperávamos para 2026”, completa.
Sobre o cenário fiscal, Rafaela lembra que o governo revisou os gastos para cima já na primeira avaliação bimestral do ano. “No primeiro relatório de avaliação do orçamento do ano, o governo revisou a expectativa de resultado primário deficitário de R$ 23 bilhões para R$ 60 bilhões, contemplando aumento de gastos, incluindo crédito extraordinário do novo subsídio do diesel”, detalha.
“Ressaltamos que, com a nova revisão, a previsão de crescimento das despesas está em quase 6% acima da inflação, o que representa um risco para o cenário de inflação, além de manter o prêmio de juros devido à trajetória da dívida pública.”
Fonte: Infomoney
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