Colheita mecanizada de cana-de-açúcar. Gasolina com 32% de etanol anidro a partir de agosto amplia em 6,67% o mercado do biocombustível e altera o mix de produção das usinas do Nordeste costeiro na safra 2026/2027. Foto: Wenderson Araújo/CNA

Teor de etanol anidro na gasolina sobe de 30% para 32% e altera mix de produção das usinas do NE costeiro no início da safra. Distribuidoras contestam falta de testes.

As usinas do Nordeste costeiro iniciarão a safra 2026/2027 com o mix de produção alterado e um mercado maior para o etanol anidro. A elevação de 30% para 32% no teor deste biocombustível na gasolina, aprovada na terça-feira (14) pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), amplia em 6,67% o volume que poderá ser vendido às distribuidoras e abastecer veículos. “Melhora os fluxos de caixa das empresas porque nós teremos mercado mais garantido, mais assegurado”, afirmou ao Movimento Econômico o presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Pernambuco (Sindaçúcar-PE) e CEO da NovaBio, Renato Cunha. A medida vale por 180 dias a partir de 1º de agosto, prorrogáveis uma única vez por igual período, e entra em vigor no início da moagem nos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe, prevista entre o final de julho e outubro.

“Se o mercado de anidro cresce, o mix de produção vai alterando paulatinamente mais em favor do etanol, sobretudo o anidro, que é esse que o governo tem a prerrogativa de efetuar a mistura”, destacou Cunha. O presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Alagoas (Sindaçúcar-AL), Pedro Robério Nogueira, classificou a decisão como uma reivindicação antiga do setor e projeta a permanência da medida. “Espero que dentro desse prazo os testes sejam concluídos e ela se torne uma medida definitiva”, disse ao Movimento Econômico. A vigência temporária decorre do fato de que o novo teor foi antecipado enquanto os ensaios veiculares ainda estão em execução.

A notícia favorável ao setor sucroalcooleiro chega num momento em que o segmento acompanha a possível entrada em vigor, nesta quarta-feira (15), de uma sobretaxa de 25% dos Estados Unidos sobre o etanol e o açúcar brasileiros, proposta com base na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana.

Safra e cadeia produtiva no Nordeste

A safra 2026/2027 já está em andamento em Bahia, Maranhão e Piauí, onde a estiagem começa mais cedo, e entre o final de julho e outubro chega ao Nordeste costeiro, que por ordem de volume de produção reúne Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe. A previsão nacional para a safra em curso é de 15,6 bilhões de litros de anidro e 25,8 bilhões de litros de hidratado. Cunha estima que o novo teor acrescentará entre 900 milhões e 1 bilhão de litros ao mercado de anidro por ano. “O ideal é que o mercado de anidro se coloque com uma segurança de destino da produção, para que haja mais equilíbrio na cadeia produtiva, mais estabilidade no mercado, sem grandes oscilações”, disse.

O etanol anidro é cotado por valor inferior ao da gasolina A vendida pela Petrobras às distribuidoras, e a relação contratual entre usinas e distribuidoras é regulada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que chancela os contratos de fornecimento. “Permite ao Brasil respirar melhor. Permite também ancorar o preço da gasolina”, afirmou Cunha.

Nogueira acrescentou que, com a permanência do conflito no Oriente Médio, a gasolina tende a ser pressionada a novos aumentos e a ampliação da mistura funciona como uma ferramenta de contenção. “É uma medida que é muito positiva para o nosso estado, como produtor de etanol, mas sobretudo para o Brasil, para ter uma ferramenta de melhor enfrentamento nessas situações atípicas de guerra”, disse.

Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), a resolução do CNPE considerou a volatilidade no mercado internacional de petróleo e visa reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados. O governo estima que o país deixará de importar 900 milhões de litros de gasolina por ano.

Trajetória até os 35% de etanol na gasolina

A progressão do teor seguiu trajetória escalonada dentro da faixa autorizada pela Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024), que permite misturas de até 35%: de 27% para 30%, agora para 32%. “No futuro próximo deve ser 35%, como forma de cada vez mais melhorar a presença do etanol, que é descarbonizador, dentro da gasolina”, disse Cunha. Segundo a nota do MME, estudos para misturas superiores, incluindo o E35, já seguem em andamento no âmbito do Comitê Técnico Permanente do Combustível do Futuro, com foco na durabilidade de componentes e nos efeitos de longo prazo.

Os ensaios que sustentaram a aprovação do E32 foram coordenados pelo MME e executados pelo Instituto Mauá de Tecnologia (IMT). Os testes avaliaram desempenho, dirigibilidade, partida a frio, consumo de combustível e emissões, tanto em laboratório quanto em condições reais de uso. A mistura apresentou comportamento equivalente ao de teores menores de etanol, inclusive em veículos equipados com motores não flex.

Resistência de distribuidoras e transportadores

A elevação não é consenso na cadeia de combustíveis. Na véspera da reunião do CNPE, a Associação das Distribuidoras de Combustíveis (Brasilcom), a Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis), o Sindicato Nacional do Comércio Transportador, Revendedor, Retalhista de Combustíveis (SindTRR) e a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) divulgaram nota conjunta em que manifestam preocupação com o aumento da mistura obrigatória sem a conclusão dos testes.

O documento, datado de 13 de julho, destaca que cerca de 15% da frota de veículos leves no país não é flex e que embarcações de pequeno porte e motocicletas movidas exclusivamente a gasolina podem sofrer impactos em desempenho, durabilidade de peças e custo de manutenção. As entidades alertam ainda para o risco de aumento no consumo específico de combustível, já que o etanol tem menor densidade energética que a gasolina, o que pode elevar o gasto do consumidor para percorrer a mesma distância.

A nota menciona a necessidade de ajuste regulatório nas especificações da gasolina, em especial quanto à octanagem (RON) e à massa específica, sob pena de facilitar fraudes por meio de correntes de menor densidade. No caso do biodiesel, cuja mistura obrigatória pode subir de 15% para 16%, as quatro entidades afirmam estar de acordo com o cronograma de testes definido pela Portaria Normativa nº 133, de 19 de maio de 2026, do MME, e pedem que o mesmo rigor se aplique ao etanol. As entidades defendem que a política de biocombustíveis seja conduzida com previsibilidade, segurança jurídica e respeito aos ritos técnicos e regulatórios previstos em lei.

Biodiesel e combate a fraudes

Na mesma reunião, o CNPE aprovou resolução que restringe o fornecimento de biodiesel destinado à mistura obrigatória ao diesel B a unidades autorizadas pela ANP, o que cria barreira à importação do produto para esse fim. A comercialização de biodiesel importado segue permitida para os demais segmentos. Segundo o ministério, a capacidade instalada no país é suficiente para atender à demanda obrigatória sem risco de desabastecimento.

O conselho também definiu novas diretrizes de combate a fraudes e adulterações de combustíveis, com incentivo à atuação coordenada entre Ministérios Públicos, Procons, polícias, órgãos fazendários e o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). Entre as medidas está a implementação de escrituração eletrônica certificada para operações comerciais de postos revendedores e o fortalecimento das capacidades laboratoriais da ANP.

Fonte: Movimento Econômico

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