Foto: European Energu/Divulgação
Projeto da European Energy prevê R$ 2 bilhões em investimentos e 1.500 empregos na fase de obras; planta de e-metanol tem potencial de ser a primeira em operação comercial nas Américas.
A primeira fábrica de e-metanol do Brasil começa a sair do papel com a emissão da Licença Prévia (LP) pela Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco (CPRH). O documento autoriza o início das etapas de implantação do projeto da European Energy no Complexo Industrial Portuário de Suape, no município do Cabo de Santo Agostinho. Com investimento estimado de R$ 2 bilhões, a planta — que deverá gerar 1.500 empregos diretos na fase de obras — tem potencial de ser a primeira em operação comercial nas Américas com essa tecnologia e deverá entrar em operação no segundo semestre de 2028, com capacidade de produção de até 100 mil toneladas por ano do combustível.
A unidade será implantada em uma área de 10 hectares e operada pela EE Metanol do Brasil Ltda, subsidiária da companhia dinamarquesa. O projeto integra a estratégia do Governo de Pernambuco para estruturar um polo de transição energética no Estado, com foco em soluções industriais de baixo carbono voltadas à exportação e ao abastecimento do mercado marítimo.
A expectativa é que o empreendimento se torne referência regional na cadeia de combustíveis sintéticos e atue como âncora para atração de novos projetos associados à transição energética. O governo estadual articula ações de infraestrutura e capacitação técnica voltadas ao fortalecimento dessa nova frente industrial em Suape.
Complexo industrial inicia fase de implantação com tecnologia Power-to-X
Com a licença já em vigor, a empresa poderá avançar na engenharia executiva da planta, preparar os projetos de infraestrutura e cumprir os requisitos legais para a próxima fase: a Licença de Instalação. A LP foi concedida no dia 27 de agosto e tem validade inicial de um ano, prorrogável por até cinco. Entre as condicionantes estão a apresentação de projetos elétricos, sistemas de tratamento de efluentes, viabilidade hídrica, planos ambientais e programas específicos por setor.
A fábrica de e-metanol utilizará tecnologia Power-to-X, que combina energia renovável (solar e eólica) para geração de hidrogênio verde com CO₂ capturado de fontes biogênicas. O fornecimento do dióxido de carbono será realizado pelo Grupo EQM, com sede em Pernambuco, que firmou parceria técnica com a European Energy para essa etapa do processo.
Segundo o diretor de Relações Institucionais da EE Metanol do Brasil, Alexandre Groszmam, o cronograma prevê início da construção entre o fim de 2025 e início de 2026, com operação comercial a partir de 2028. A expectativa é de que a fase de obras mobilize cerca de 1.500 trabalhadores diretos, além de fornecedores e prestadores de serviço vinculados ao setor energético e industrial.
A planta também deverá atrair empresas fornecedoras de componentes tecnológicos, além de operadores logísticos especializados em transporte e armazenamento de combustíveis alternativos. O porto de Suape passará por adaptações para receber cargas específicas associadas à operação da unidade.
Missão técnica à Dinamarca reforça segurança no licenciamento
Antes da emissão da licença, uma missão da CPRH visitou a sede da European Energy em Copenhague e a unidade industrial de Kassø, na Dinamarca — primeira fábrica de e-metanol do mundo em operação, inaugurada pela própria companhia em maio de 2025. A visita técnica buscou avaliar o padrão ambiental e tecnológico da empresa, que será replicado em Pernambuco.
Segundo o diretor de Licenciamento Ambiental da CPRH, Eduardo Elvino, a ação foi estratégica para qualificar a análise técnica local. “A equipe sentiu a necessidade de conhecer a empresa em funcionamento, para dar mais segurança ao processo de licenciamento em curso em Pernambuco e, também, para o monitoramento do empreendimento”, afirmou.
A unidade industrial visitada está localizada na cidade de Kassø, no sul da Dinamarca, e é considerada a primeira planta de e-metanol do mundo em operação comercial. Inaugurada em maio de 2025, a fábrica utiliza tecnologia Power-to-X para converter energia renovável em metanol verde, a partir de hidrogênio verde e dióxido de carbono capturado.
Com capacidade inicial de 32 mil toneladas por ano, o combustível é destinado a empresas de navegação e transporte com metas internacionais de descarbonização. O modelo técnico-operacional adotado na Dinamarca servirá de referência direta para o projeto de Suape.
A visita também permitiu à CPRH observar a integração do empreendimento com comunidades locais e práticas de monitoramento ambiental contínuo, que serão adotadas no contexto pernambucano como parte das exigências de acompanhamento pós-licenciamento.
Suape busca consolidação como hub de combustíveis limpos
De acordo com o diretor-presidente do Complexo de Suape, Armando Monteiro Bisneto, o projeto é um passo estratégico para consolidar a infraestrutura portuária de Pernambuco como referência nacional em logística e abastecimento de combustíveis de nova geração. “Vamos ofertar ao mercado marítimo combustíveis de fontes limpas, com efeitos positivos no transporte de cargas por navios, consolidando Suape como referência logística e ambiental”, afirmou.
O produto final da planta, o e-metanol, é considerado uma alternativa ao óleo combustível convencional (bunker oil) e responde às novas exigências da Organização Marítima Internacional (IMO), que impõe metas progressivas de descarbonização ao setor naval. A planta de Suape terá capacidade de 15 toneladas por hora de metanol verde, com foco inicial no mercado internacional.
A estratégia do Estado inclui a criação de um ambiente regulatório e institucional favorável à exportação de combustíveis limpos, com articulação junto a agências federais e potenciais compradores na Europa e Ásia. A expectativa é que Suape passe a operar também como terminal de distribuição para outros portos brasileiros.
Nordeste reforça liderança na cadeia de combustíveis verdes
A implantação do projeto em Suape insere Pernambuco no mapa global dos combustíveis sintéticos e confirma o protagonismo do Nordeste na transição energética nacional. Segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a região concentra mais de 80% do potencial técnico para produção de hidrogênio verde no país, graças à elevada disponibilidade de fontes solar e eólica.
Além da planta pernambucana, projetos voltados à produção de amônia verde e SAF (combustível sustentável de aviação) estão em estruturação no Ceará, Bahia e Rio Grande do Norte. A combinação de infraestrutura logística, incentivo estadual e recursos naturais disponíveis tem sido decisiva para a atração de investimentos estrangeiros.
No caso de Pernambuco, o diferencial competitivo está na articulação entre porto-indústria, corredores de energia renovável e planejamento territorial voltado à economia de baixo carbono. A criação de um marco regulatório estadual para produção e exportação de combustíveis verdes está em avaliação pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico.
A fábrica de e-metanol da European Energy é o primeiro projeto de grande escala a obter licença prévia e iniciar oficialmente a fase de implantação no setor, marcando um novo ciclo de industrialização orientado à economia de baixo carbono.
Fonte: Movimento Econômico