O trecho Salgueiro-Suape da Transnordestina vai impulsionar setores como a avicultura e o polo gesseiro, além de trazer novas cargas para o Porto de Suape. Foto: divulgação TSLA
Os eventos sobre a Ferrovia Transnordestina vão acontecer em sete cidades. O primeiro será em Salgueiro, no dia 24, com foco em integração.
Concluir o trecho pernambucano da Ferrovia Transnordestina, que vai ligar Salgueiro ao Porto de Suape, é fundamental para Pernambuco e estados vizinhos ficarem mais competitivos, beneficiando polos econômicos já existentes como avicultura, gesso, frutas irrigadas e também atraindo novos negócios, incluindo os que vão surgir a partir de Suape como a movimentação de grãos e o transporte de combustíveis do litoral para o interior pelos trilhos. Os impactos desta obra serão discutidos numa série de eventos que tem início em Salgueiro (PE), em 24 de julho.
Iniciativa conjunta, da Sudene e portal Movimento Econômico, os seminários Conexões Transnordestina – A Ferrovia que Move Pernambuco, vai percorrer mais seis cidades pernambucanas, além de Salgueiro. O evento inaugural esgotou as vagas, contando com mais de 300 inscritos. A intenção é permitir que a população pernambucana discuta a obra, como explica o superintendente da Sudene, Danilo Cabral:
Também serão realizados debates em Petrolina, no dia 13 de agosto, com foco na fruticultura e exportação, e em Araripina, dois dias depois, em 15 de agosto, tendo o Polo Gesso e a construção civil como norte para os debates.
Outros eventos estão programados para Belo Jardim, em setembro; São Bento do Una, em outubro; Caruaru e no Recife em novembro. Lideranças locais, entidades empresariais e sociedade civil organizada fazem parte do público alvo. E como afirma a CEO do Movimento Econômico, Patricia Raposo, as discussões não serão políticas, serão técnicas. “O evento é um chamado para que todos se mobilizem para que esta obra finalmente seja concluída em Pernambuco”, disse Patricia.
A importância da obra
A ferrovia, que parte do Piauí e se conecta ao Porto do Pecém, no Ceará, e ao Porto do Suape, em Pernambuco, está com obras bastante avançadas no estado cearense. Danilo Cabral informa que, em Pernambuco, elas devem ser retomadas no início de 2026. “Atualmente o Ministério dos Transportes está atualizando os projetos e as licitações devem ocorrer ainda neste segundo semestre”, assegura.
“Ter o trecho da ferrovia pernambucana em operação é muito importante para Pernambuco e Estados vizinhos. Alguns setores da nossa economia já estão ficando estagnados sem uma logística mais eficiente”, afirma o presidente da Federação da Indústria do Estado de Pernambuco (Fiepe), Bruno Veloso. Ele cita como exemplo o gesso: “os espanhóis estão conseguindo vender o gesso produzido na Espanha mais barato do que o produzido no Araripe”.
O motivo, segundo Bruno, é que o gesso do Araripe, está sendo transportado por caminhão, numa distância média de 680 km. No País, a maior reserva de gipsita, matéria-prima do gesso, está em Pernambuco. Em média, o preço do frete ferroviário é de 30% a 40% mais barato do que o rodoviário e isso faz muita diferença para produtos de baixo valor agregado, como a gipsita.
O ramal Salgueiro-Suape é uma necessidade para os setores produtivos de Pernambuco. Especialista em transporte, o professor da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Maurício Pina, argumenta existem potenciais cargas que viabilizariam o trecho Salgueiro-Suape. Pelos cálculos dele, se toda a produção do Araripe viesse para Suape de trem seriam necessários cinco trens por dia, cada um com 50 vagões.
Potencial de Belo Jardim
A Transnordestina pernambucana vai passar por Belo Jardim, cidade que tem um grande polo de produção de baterias. “Se pegasse toda a produção de baterias feita em Belo Jardim, seria necessário, a cada dois dias, um trem com 50 vagões chegando em Suape”, explica Maurício, argumentando que a fabricante das baterias também poderia reduzir os seus custos levando insumos que chegam, pelo litoral, de trem até o Agreste. Belo Jardim está a 183 km do Recife.
Outro setor que poderia se beneficiar muito dos trens para diminuir os seus custos é o polo pujante de avicultura do Agreste Meridional de Pernambuco, espalhado em cidades como São Bento do Una, Garanhuns, Caruaru, entre outras. O transporte do milho, que geralmente, vem do Centro-Oeste, ou do litoral, quando é importado, impacta os custos do setor. “Os trens poderiam viabilizar o transporte de proteína animal e também levar cereais, como soja e milho para os produtores. Seria uma carga de retorno”, explica Bruno Veloso. No Agreste, também está o polo leiteiro de Pernambuco, um dos maiores do Nordeste.
O presidente da Fiepe cita os combustíveis, como outra carga que poderia sair de Suape para o interior de Pernambuco, onde seriam implantanda centrais de abastecimento. “Pernambuco tem uma das maiores refinarias da Petrobras, a Rnest, em Suape, que está sendo ampliada. Grandes volumes do combustível iriam pela linha férrea até cidades como Salgueiro ou Eliseu Martins e a partir destas centrais ocorreria uma entrega regionalizada”, diz Bruno. Indo de trem até Salgueiro, o combustível deixaria de percorrer cerca de 500 km por caminhão.
Quem já tem o cálculo de quantos caminhões seriam retirados das estradas próximas a Salgueiro, caso a Transnordestina pernambucana fosse concluída é o prefeito de Salgueiro, Fabinho Lisandro (PSD). “Já existe um debate na Petrobras/Transpetro para instalar uma base terrestre de combustível em Salgueiro, caso o trecho Salgueiro-Suape entre em operação. Nos cálculos deles, mais de 300 caminhões seriam retirados por dia nas estradas próximas à cidade”, conta.
Lisandro diz que só tem duas chaves capazes de virar a chave de Salgueiro e do Sertão de Pernambuco para um crescimento mais sustentável. “Uma é o trecho Salgueiro-Suape da Transnordestina ser concluído porque isso traria novos negócios pra região. O outro é a água da Transposição do São Francisco ser usada em projetos de irrigação porque existem muitas terras fertéis na região que não são cultivadas por falta do líquido”.
Por Salgueiro passam duas rodovias importantes, as BR-232 e a BR-116. A cidade está, em média, a 600 km das principais capitais do Nordeste. “Uma das vocações de Salgueiro é a logística”, resume o prefeito. O trecho pernambucano da rodovia incluía um entreposto de mercadorias em Salgueiro. “A decisão política de Lula de retomar o trecho Salgueiro-Suape nos anima e reforça a necessidade deste sonho”, conclui.
O trecho Salgueiro-Suape é enxergado como um fator que vai melhorar a competitividade da região. “Se querem interiorizar a indústria pernambucana, um dos fatores fundamentais é ter um transporte eficiente e mais barato”, conclui Bruno, acrescentando que os incentivos fiscais concedidos pelos Estados vão acabar em 2032. E, neste novo cenário, quem tiver a melhor infraestrurura vai ser mais competitivo.
O impacto da ferrovia Salgueiro-Suape no porto pernambucano
“Todos os grandes portos do mundo são alimentados por ferrovias. Não existe um grande porto sem receber carga de trens”, segundo a opinião de Maurício Pina, Bruno Veloso e da renomada economista Tânia Bacelar, que lembrou que Suape é um projeto no qual os pernambucanos investem há mais de 40 anos.
Isso significa que caso a ferrovia, não saia do papel, o porto pernambucano tende a perder importância na movimentação regional, pois os trens transportam grandes volumes de cargas. Geralmente, com os maiores volumes de carga são realizados novos investimentos, resultando em portos com o preço mais competitivo nas tarifas. “É uma questão de escala e de custo operacional”, complementa Maurício Pina.
Segundo o presidente do Porto de Suape, Armando Monteiro Bisneto, a implantação da linha férrea Salgueiro-Suape é importante porque vai viabilizar cargas que hoje o porto não teria como atender. A estatal já tem separado uma área para receber o terminal de minério que vai atender a ferrovia.
A estatal também pediu a Infra S.A. um estudo da área – dentro do próprio porto – por onde a ferrovia vai passar nos diversos setores de Suape. Este estudo deve ser entregue este mês. “O que Suape pode fazer é esta área”, afirma Bisneto.
A Infra S.A está fazendo projetos executivos do trecho Salgueiro-Suape e informou que vai licitar as primeiras obras ainda este ano. Bisneto diz que toda a bancada política de Pernambuco tem que se mobilizar em torno deste projeto, que é de Estado.
“A disputa de priorização de trechos entre Piauí- Ceará e o trecho de Pernambuco não se justifica. O novo momento da política de investimentos em ferrovias do Brasil indica que mais que nunca a Transnordestina não pode chegar apenas ao sul do Piauí. A Transnodestina tem que ter os dois trechos e chegar à Ferrovia Norte- Sul”, resume a renomada economista Tânia Bacelar. Os dois trechos a que ela se refere são o de Eliseu Martins- Salgueiro-Pecém – que está em construção – e o de Salgueiro-Suape com obras paralisadas desde 2016.
A Norte-Sul é uma ferrovia que vai cortar o País, de forma vertical, passando por nove Estados, indo desde o Maranhão até o Rio Grande do Sul. Uma futura conexão da ferrovia Norte-Sul vai fazer os produtos que circulam pelos futuros trilhos da Transnordestina chegarem em ferrovias que vão para um porto construído pelos chineses no Peru, o de Chancay, num projeto chamado Rotas de Integração Sul‑Americana, coordenado pelo Ministério do Planejamento e Orçamento.
“Esta é uma discussão que o Nordeste Meridional tem que entrar. Faz parte deste novo momento econômico em que a China já é o primeiro parceiro comercial do Brasil”, argumenta Tânia Bacelar. Segundo ela, a Bahia já começou a fazer um estudo no sentido de se integrar com esta futura Rotas da Integração Sul-Americana e os demais estados do Nordeste devem ficar atentos a esta nova realidade.
O Rotas da Integração Sul-Americana prevê conexões de várias ferrovias em construção como Fiol – que vai ligar Ilhéus, na Bahia, a Figueiropólis, no Tocantins -, a Fico – que começa em Mara Rosa, em Goiás, e segue até Água Boa, no Mato Grosso, além da Norte‑Sul. No planejamento do governo federal, várias ferrovias vão escoar produtos para este Porto de Chancay.
Como começou a Transnordestina
Com as suas obras iniciadas em 2006, a Ferrovia Transnordestina consiste, no projeto original, em duas grandes linhas férreas, começando em Eliseu Martins, no Sul do Piauí, indo até Salgueiro. De lá, a ferrovia se dividia em dois trechos, um indo para o Porto de Pecém, no Ceará, e o outro seguindo para Suape.
As obras de ambos os trechos foram interrompidas algumas vezes. A linha que ia para o Ceará foi retomada há mais de três anos e a que seguia para Suape está paralisada desde 2016, porque o concessionário – que estava à frente das obras, a Transnordestina Logística S.A. (TLSA) – desistiu da construção do trecho pernambucano em 2022.
Este ano, a estatal Infra S.A. informou que vai licitar as obras de dois trechos da linha Salgueiro-Suape no segundo semestre deste ano.
Fonte: Movimento Econômico
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