Novos poços vão explorar águas profundas nos dois estados/Foto: Petrobras/Divulgação.
Com apenas 10 poços perfurados em 2024, ANP vê cenário crítico na atividade exploratória no país.
A Petrobras vai retomar investimentos em duas frentes no Nordeste brasileiro com o projeto Sergipe Águas Profundas, já em fase final de contratação, e a atividade exploratória na Bahia, com sondas contratadas e novos poços em planejamento. O anúncio foi feito por Juliano Stica, gerente geral de exploração das margens Sudeste, Leste e Terra da estatal, durante painel realizado no Energia 360, promovido pela Origem, em Maceió.
Segundo o executivo, a companhia reestruturou internamente sua área de exploração terrestre, que havia sido desmobilizada, e vem investindo em reprocessamento de dados sísmicos em regiões com infraestrutura instalada e histórico produtivo, como Urucu (AM) e o interior da Bahia.
“Estamos muito próximos de viabilizar o projeto Sergipe Águas Profundas. Na Bahia, já contratamos sondas para retomar as atividades e devemos perfurar um poço ainda neste ano. A Petrobras tem compromisso com o desenvolvimento regional e o gás é um dos grandes alvos. Conseguimos aprovar agora um primeiro poço histórico numa área adjacente ao Polo de Urucu. E estamos em vias de aprovar também um poço rotatório na Bahia. Essa sinergia com ativos existentes e outras operadoras será fundamental nessa nova fase”, destacou.
A escolha da Petrobras em manter ativos em terra na Bahia, em linha com a decisão recente da companhia de manter a operação no Polo Bahia, após um período de revisão dos ativos terrestres, e investir em águas profundas em Sergipe está inserida em um contexto mais amplo da nova estratégia da estatal, voltada à recomposição de reservas e à oferta de gás natural.
“A Petrobras busca recompor suas reservas por meio de crescimento orgânico, e não por aquisição de ativos. A exploração é o DNA da empresa”, frisou Stica.
O projeto em Sergipe se soma a outras iniciativas que visam ampliar a oferta de gás no país. Já a Bahia ressurge como polo de potencial remanescente, com foco na integração entre exploração e infraestrutura instalada — inclusive com abertura a parcerias com operadoras privadas.
Eneva defende impacto socioeconômico do gás no Nordeste
A Eneva, uma das maiores empresas de energia do país, também destacou o papel estratégico da região na segurança energética brasileira. Frederico Miranda, diretor de Exploração, Reservatório e Tecnologias de Baixo Carbono na companhia, lembrou que o embrião da empresa surgiu a partir de uma descoberta considerada sub comercial na Bacia do Parnaíba, no Maranhão, reaproveitada décadas depois.
“A Eneva começou com um único ativo na Bacia do Parnaíba, reaproveitando um poço perfurado em 1987. Hoje somos uma empresa de R$ 20 bilhões de valor de mercado, com atuação em quase dez estados e papel central na segurança energética do país”, disse.
A companhia opera duas plantas de liquefação de gás natural e lidera em geração termoelétrica, com destaque para ativos no Maranhão, Amazonas e Sergipe — onde mantém o terminal de GNL em Barra dos Coqueiros. Miranda reforçou que a atuação em áreas onshore do Norte e Nordeste tem um impacto que vai além da produção:
“A transformação que o gás proporciona nessas regiões é socioeconômica. O Onshore tem papel direto na geração de emprego, renda e infraestrutura em áreas que precisam de desenvolvimento”, afirmou.
A Eneva também tem investido em inteligência artificial para reprocessamento de dados sísmicos antigos, ampliando o índice de sucesso exploratório de 30% para 70% na Bacia do Parnaíba, segundo o executivo.
ANP alerta para queda histórica na atividade exploratória
Apesar dos avanços pontuais, o cenário da exploração de petróleo e gás no Brasil é preocupante. Para Luciano Lobo, superintendente de exploração da ANP, 2024 pode ser considerado o pior ano da história recente da atividade exploratória no país, com apenas 10 poços perfurados até julho.
“Temos R$ 10 bilhões em garantias financeiras depositadas para exploração, mas os investimentos estão muito abaixo do esperado. Em terra, só 15 milhões de dólares foram investidos dos 107 milhões previstos”, disse Lobo.
Mesmo com o maior número de blocos em fase de exploração da história (mais de 400), a execução de investimentos está abaixo do potencial. A ANP aposta em medidas regulatórias para mudar esse cenário, como a nova resolução que permitirá a transferência de unidades de trabalho entre blocos exploratórios da mesma operadora, publicada em junho.
Tecnologia, regulação e revisão de dados antigos
Os painelistas também defenderam a importância do reprocessamento de dados sísmicos antigos, muitas vezes produzidos com baixa resolução e descartados no passado. Para Flávio Fernandes, diretor técnico da S&P Global, o Brasil precisa combinar o uso de tecnologia com uma regulação mais ágil e investimentos em infraestrutura.
“A curva de descobertas está estagnada. Mesmo com maior taxa de sucesso, os volumes descobertos não são suficientes. O Brasil é estratégico na América Latina, mas precisa perfurar mais”, alertou.
Fernandes reforçou a importância de revisitar áreas negligenciadas décadas atrás. “Muitos poços considerados secos ou sub comerciais no passado podem hoje representar oportunidades reais, com apoio da tecnologia.”
Na agenda regulatória da ANP, uma das principais frentes será a criação de um novo Programa Exploratório Mínimo (PEM), que poderá incluir custos com licenciamento ambiental como parte das obrigações exploratórias — um pleito antigo das operadoras.
“Já iniciamos o processo para uma nova resolução do PEM, com previsão de publicação até 2026. Queremos envolver a sociedade, operadoras e especialistas para construir uma regulamentação que estimule de fato a atividade”, informou Lobo.
A Petrobras, por sua vez, segue com visão de longo prazo para o setor. Stica concluiu sua participação no painel reiterando que a exploração feita hoje é o que sustentará a produção nacional em 2035. E que o Nordeste tem papel essencial nesse processo.
“O nosso trabalho agora é garantir reservas futuras. E isso passa por Sergipe, passa pela Bahia, passa pelas bacias terrestres que têm muito a oferecer. Esse é o compromisso da Petrobras com o Brasil e com o desenvolvimento das regiões onde atuamos”, concluiu.
FONTE: MOVIMENTO ECONÔMICO
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